quarta-feira, 14 de março de 2007

Ando só...

Ando só

Ouvindo uma outra música dos Engenheiros do Hawaii, chamada “Ando Só”, do disco “Várias Variáveis”, de 1991, inquietou-me um pouco meu espírito sobre a noção de muito e de muito pouco. Às vezes, como diria Renato Russo, em Teatro dos Vampiros, “o que é demais nunca é o bastante”. Querer todos e tudo é talvez perder por completo o freio da mão. Tipo aquela sensação de preguiça que dá quando queremos, de uma só vez, subir as escadas de nosso prédio carregando todos os pacotes e entulhos. No trajeto, tudo cai, pois o querer ter tudo conduziu ao chão, e transformou o tudo em nada. Por outro, lado, quanto menos se quer, de menos se precisa, e, acredito, mais se tem. Há um dito que diz: “quem menos tem mais tem”. Não querer o carinho de todos é não cobrar carinho, e com isso todo gesto passe a ser carinho exatamente por isso. Não querer dinheiro é exatamente não querer desejos que se compram em fast food. Ao invés de maximizar, penso que seria melhor minimizarmos tudo, pois tornaríamos menos dependentes de todos: menos comida é menos fome; menos televisão é menos energia que se gasta; menos pessoas ao redor é ter menos preocupações e decepções. Seria como “O dia em que a terra parou”, de Raul Seixas:
O comandante não saiu para o quartel
Pois sabia que o soldado também não tava lá
E o soldado não saiu pra ir pra guerra
Pois sabia que o inimigo também não tava lá
E o paciente não saiu pra se tratar
Pois sabia que o doutor também não tava lá
E o doutor não saiu pra medicar
Pois sabia que não tinha mais doença pra curar
A idéia de andar só não é um andar egoísta. E sim, andar com pouco peso, andar leve sobre o chão. Não é cultuar a solidão, mas acreditar em si, mesmo estando só. Querer o mínimo possível para levar consigo apenas o grão que interessa. Como bem diz a música, título deste arquivo,
ando só
como um pássaro voando
ando só
como se voasse em bando
ando só
pois só eu sei andar
sem saber até quando
ando só...

quinta-feira, 8 de março de 2007

O porquê do nome...

O título deste blog partiu inicialmente de uma reflexão sobre mim mesmo e minhas inquietações no mundo. Eu já conhecia duas canções do Engenheiros do Hawaii, intituladas "Exército de um homem só I" e "Exército de um homem só II". Alguns trechos de que gosto:
"não interessa o que o bom senso diz
não interessa o que diz o rei
(se no jogo não há juiz
não há jogada fora da lei)
não interessa o que diz o ditado
não interessa o que o estado diz
nós falamos outra língua
moramos em outro país
Somos um exército
(o exército de um homem só)
no difícil exercício de viver em paz
somos um exército
(o exército de um homem só)
sem fronteiras para defender
pra defender"
E na segunda versão:

"somos kamikazes
incapazes de ir à luta
somos quase livres
(isto é pior do que a prisão)
somos um exército
(o exército de um homem só)
um bando de vampiros
que odeiam sangue
sem bandeira
sem fronteiras para defender
somos um exército
(o exército de um homem só)
nesse exército
(no exército de um homem só)
todos sabem que tanto faz
ser culpado ou ser capaz
tanto faz..."
Depois, encontrei um Livro de Moacyr Scliar, com o mesmo nome das canções. Neste livro, conta-se "a saga de Birobidjan, o solitário pregador de um mundo melhor, seu louco humanismo, quixotesco, seus sonhos mágicos, fazem deste livro uma leitura emocionante e inesquecível". Definitivamente, encantei-me com esta idéia. Muito mais à frente, quando conheci o cd do Los Hermanos, "Bloco do eu sozinho", com músicas como "A Flor", "Casa pré-fabricada" e "Sentimental", encontrei duas expressões-irmã, que concentram chaves para enigmas por que gosto de navegar: Exército de um homem só e Bloco do eu sozinho. Finalizo com Los Hermanos:

"É bom, às vezes, se perder
sem ter porque,
sem ter razão.
É um dom saber envaidecer,
por si, saber mudar de tom.
Quero não saber de cor, também.
Para que minha vida siga adiante."




Homem não chora

Ouvindo a música "Homem não chora", de Frejat, comecei a pensar na possibilidade de relativizar o espetáculo do choro. Em geral, as pessoas mensuram o quantum da dor de acordo com a teatralização: uivar, gritar, socar o próprio rosto, jogar-se ao chão, correr. Quanto mais verossímel for a cena, mais sofrimentos há. Não julgo aqui a voluntariedade existente nas expressões mais íntimas de dor. Julgo a convenção. "Antes que eu me esqueça [...] meu rosto vermelho e molhado é só dos olhos pra fora / todo mundo sabe que homem não chora". As pessoas poderiam deixar de lado um pouco a racionalidade e apenas sentir, para, assim, encontrar a mais profunda forma de chorar, lamentar-se, sofrer, sangrar, doer... Há quem chore como um porco amarrado em um bagageiro de uma bicicleta... os gritos são ouvidos de muito longe. Há quem prefira chorar como um carneiro, petrificado, mordendo a língua, enquanto o machado tinge sua alma. Há quem sorri. Há quem desmaie. Há quem blasfeme. Há quem compõe sonetos e canções. "Mas homem não chora nem por dor nem por amor". Em outra música, Gabriel O Pensador, assim diz: " Sai de baixo que eu sou muito macho, Que eu sou muito macho, Pelo menos eu acho. Macho não vacila, macho arrasa. Macho não leva desaforo pra casa. Macho é isso, não brinca em serviço. Macho é robusto, macho é roliço. Macho é parrudo, macho é pescoçudo. Macho é poderoso, macho é tudo". Tantas palavras... Essa hiperbolização é apenas um artifício para esconder uma profunda fragilidade. E, claro, seja pela ironia, ou pela metáfora, os dois compositores brincam com isso. Assim como eu brinco de sorrir, enquanto choro. Ah! "Mas homem não chora nem por ter nem por perder".