Ando só
Ouvindo uma outra música dos Engenheiros do Hawaii, chamada “Ando Só”, do disco “Várias Variáveis”, de 1991, inquietou-me um pouco meu espírito sobre a noção de muito e de muito pouco. Às vezes, como diria Renato Russo, em Teatro dos Vampiros, “o que é demais nunca é o bastante”. Querer todos e tudo é talvez perder por completo o freio da mão. Tipo aquela sensação de preguiça que dá quando queremos, de uma só vez, subir as escadas de nosso prédio carregando todos os pacotes e entulhos. No trajeto, tudo cai, pois o querer ter tudo conduziu ao chão, e transformou o tudo em nada. Por outro, lado, quanto menos se quer, de menos se precisa, e, acredito, mais se tem. Há um dito que diz: “quem menos tem mais tem”. Não querer o carinho de todos é não cobrar carinho, e com isso todo gesto passe a ser carinho exatamente por isso. Não querer dinheiro é exatamente não querer desejos que se compram em fast food. Ao invés de maximizar, penso que seria melhor minimizarmos tudo, pois tornaríamos menos dependentes de todos: menos comida é menos fome; menos televisão é menos energia que se gasta; menos pessoas ao redor é ter menos preocupações e decepções. Seria como “O dia em que a terra parou”, de Raul Seixas:
O comandante não saiu para o quartel
Pois sabia que o soldado também não tava lá
E o soldado não saiu pra ir pra guerra
Pois sabia que o inimigo também não tava lá
E o paciente não saiu pra se tratar
Pois sabia que o doutor também não tava lá
E o doutor não saiu pra medicar
Pois sabia que não tinha mais doença pra curar
A idéia de andar só não é um andar egoísta. E sim, andar com pouco peso, andar leve sobre o chão. Não é cultuar a solidão, mas acreditar em si, mesmo estando só. Querer o mínimo possível para levar consigo apenas o grão que interessa. Como bem diz a música, título deste arquivo,
ando só
como um pássaro voando
ando só
como se voasse em bando
ando só
pois só eu sei andar
sem saber até quando
ando só...