sábado, 12 de junho de 2010

Caminhada

    Quem diria meu amigo
    que ter todo dia
    uma mulher na cama
    dormir abraçado, transar...
    cansa! Quem diria...
    Quem diria meu amigo
    que ficar maior de idade
    assistir filmes eróticos
    não ter hora para voltar,
    perdeu a graça.
    Quem diria meu amigo
    que escrever poesias,
    andar com livro de cientista
    debaixo do braço,
    participar de movimentos estudantis,
    usar o símbolo anárquico
    é coisa de leso.
    Quem diria meu amigo
    um beijo na boca,
    dançar uma música lenta
    tirar um sarrinho de leve,
    é coisa de bicha.
    Quem diria meu amigo
    que chorar no ano novo
    embriagar-se de alegria
    e sussurrar a saudade,
    sonhar com filhos,
    quem diria,
    você envelheceu.

Geraldo de Araújo Gomes 

PALAVRAS A UM GENERAL

General, teu tanque é um carro forte.
Ele derruba uma floresta
e esmaga cem homens.
Tem, porém, um defeito:
precisa de um motorista.
General, teu bombardeiro é poderoso.
Voa mais depressa que a tempestade,
carrega mais que um elefante.
Tem, porém, um defeito:
precisa de um piloto.
General, o homem é muito útil.
Sabe voar, sabe matar.
Tem, porém, um defeito:
ele sabe pensar.
 
Bertolt Brecht

SUTIL


Se eu pudesse te tirar deste desespero,
Juro por Deus, que eu faria.
Mas a vida é bem menos
Que pão e chão
Se eu pudesse te dizer que,
Francamente, tudo de ruim irá passar,
Eu te diria (se queres ouvir, eu digo).
Mas a vida é bem menos
Que pão e chão
E teus problemas não são únicos
Nem os maiores do mundo
São apenas tristezas que colhestes
Neste campo minado da vida
A vida é bem menos
Que pão e chão
Mas não digo, aqui,
Que desacredite.
Nem que se entregue...
Nem que desista...
Mesmo sendo a vida
Um pão insosso
Mergulhado, diariamente,
Na xícara amarga do tempo...
Mesmo tendo a vida
Um chão tórrido e quente
E alheio a qualquer domínio...
Não deixe de aguar o trigo para teu pão
Nem deixe de cultivar o teu chão.
Nada é tão simples,
Nem absurdo demais,
Que não mereça cuidados.

CACOS DE TELHAS... PEDAÇOS


Têm os dias um sabor de inconstância e, no maior dos goles, de morte. Quem não se deprime ao ouvir as vibrações sonoras que tal palavra proporciona? Sua face tétrica, suas imagens fúnebres, sua substância, quem não caminha a esse encontro? Os dias são só veículos que nos dão conforto enquanto cada célula nos diz adeus.
Não pense que o aspecto mórbido dessas linhas denunciam um fascínio em morrer - a vida é, para todos, uma imensa nuvem variando em tons e formas - o que ocorre é, única e exclusivamente, medo. Encarar os jornais onde cada página tem sua marca de sangue, sua gota ácida, não é tarefa fácil, mesmo a mais fria carne tem um átomo de piedade.
E sufocante é ver alguém cruzar a porta, despedindo-se apressado, com medo de perder o giro do mundo, saindo sem saber se voltará. Para os que ficam em seus abrigos( barracos, mansões, apartamentos) resta, apenas, esperar o acaso, a péssima notícia , o cantar das rodas no atropelamento, a bala perdida encontrada nos feridos. Essa é a missão mais amarga: ESPERAR.
Quem será assaltado? Quem servirá de refém? Quem? As mães sempre temem o não regressar de seus filhos. Quem aprendeu essa lição? Quem confortará essa incerteza? Ali, o teto desaba; mais adiante, o avião se parte; no mar, a nau lança seu veneno; e aqui, o que será?
Perguntas em forma de lâminas, de espinhos, de pânico. Viver ou Sobreviver; Lutar ou Fugir. Sempre a dualidade, os dois lados da mesma moeda. Em pleno modernismo, o espírito barroco atinge seu apogeu.
Paz aos que esperam o retorno de familiares, de amigos, namorados. Que todos liguem dizendo que estão bem, que, no Natal, virão. Caso contrário, sorte aos que saíram de seus lares e que, por viverem, sujeitam-se às mais diversas formas de morte.
Olhe para cima e veja se chovem balas. Olhe para frente e perceba se aquele carro pegará você ou deixará para depois. Olhe para trás e descubra se o suspeito que te persegue está armado, senão, há chances de diálogo. Olhe para os lados e calcule quantos morrerão antes. Olhe para baixo, bem para baixo, e, acredite, é onde estamos, na fila esperando.

Penso, logo insisto em desistir disto

Vivo
Como se a vida jamais se repetisse
Como se os dias jamais voltassem
Vivo
Nascendo a cada morte minha
Até que eu morra
E outro de mim
Venha e ocupe o lugar que nunca foi meu
Vivo
Como se o dia não bastasse
Como se as horas fossem brisa leve a sugerir que passo
A passos bem marcados em um chão de delírios
Vivo
Como se eu fosse incapaz de me repetir a cada aurora.

OLHO


O que está por dentro da roupa,
obsceno e incluso nos desejos,
nas vontades, no medo, na carne...
O escondido, secretamente fechado
os crimes não revelados,
embora planejados
O que é roubo e errado
desejar a melhor amiga, a irmã, a mãe
Os poemas não ditos à amada
As críticas não feitas
Tudo o que está escuro
Todos os medos e mistérios
Há mistérios dentro de cada um
que jamais serão revelados,
serão impressos com sangue
O que está dentro de um carro,
um sarro , um agarro, um cigarro...
Tudo o que o olho não pode ver,
mas a mente é viva,
e imaginamos coisas estranhas
que os olhos jamais verão
Um olho vendado é mais preciso
que uma lente de óculos
Óculos, espelho externo
Olho, defeito de muitos.

EM CONFLITO

Choque entre a pluma e o aço

a um passo dos olhos de um cego.

Um compasso circula tingindo

um laço preto com a cor vermelha

que envolve o fluxo da fartura branca.

Lamenta um sábio, já sem juízo

e é preciso ter para não morrer no abismo

inconformado da palavra fome

que se alimenta da total dormência

de uma massa fria desse bolo fofo.

Poupe o pavor que há nas coisas.

Um golpe de caráter já ajuda.

Dor é a cor dos olhos que passam

distantes da pureza de um olhar.

Olhos que lêem e totalizam,

amenizando uma total cegueira.

Poupe o amor nunca encontrado,

a paz, a igualdade, o suicídio.

Se estas palavras inspiram-te glória,

não se engane, elas estão em guerra.

Tudo é conflito em meu país.

VOCÊ TEM FOME DE QUÊ

Mais uma loja em um shopping de luxo, na cidade de São Paulo, foi assaltada. Levaram um rolex de mais de R$ 200.000,00... Nossa! Isso mudou minha vida. Como pode, em uma sociedade extremamente injusta como a nossa, um aparelho que nos diz as horas pode valer tanto, ao passo que a vida de alguém nada vale? Como aceitar isso?