Têm os dias um sabor de inconstância e, no maior dos goles, de morte. Quem não se deprime ao ouvir as vibrações sonoras que tal palavra proporciona? Sua face tétrica, suas imagens fúnebres, sua substância, quem não caminha a esse encontro? Os dias são só veículos que nos dão conforto enquanto cada célula nos diz adeus.
Não pense que o aspecto mórbido dessas linhas denunciam um fascínio em morrer - a vida é, para todos, uma imensa nuvem variando em tons e formas - o que ocorre é, única e exclusivamente, medo. Encarar os jornais onde cada página tem sua marca de sangue, sua gota ácida, não é tarefa fácil, mesmo a mais fria carne tem um átomo de piedade.
E sufocante é ver alguém cruzar a porta, despedindo-se apressado, com medo de perder o giro do mundo, saindo sem saber se voltará. Para os que ficam em seus abrigos( barracos, mansões, apartamentos) resta, apenas, esperar o acaso, a péssima notícia , o cantar das rodas no atropelamento, a bala perdida encontrada nos feridos. Essa é a missão mais amarga: ESPERAR.
Quem será assaltado? Quem servirá de refém? Quem? As mães sempre temem o não regressar de seus filhos. Quem aprendeu essa lição? Quem confortará essa incerteza? Ali, o teto desaba; mais adiante, o avião se parte; no mar, a nau lança seu veneno; e aqui, o que será?
Perguntas em forma de lâminas, de espinhos, de pânico. Viver ou Sobreviver; Lutar ou Fugir. Sempre a dualidade, os dois lados da mesma moeda. Em pleno modernismo, o espírito barroco atinge seu apogeu.
Paz aos que esperam o retorno de familiares, de amigos, namorados. Que todos liguem dizendo que estão bem, que, no Natal, virão. Caso contrário, sorte aos que saíram de seus lares e que, por viverem, sujeitam-se às mais diversas formas de morte.
Olhe para cima e veja se chovem balas. Olhe para frente e perceba se aquele carro pegará você ou deixará para depois. Olhe para trás e descubra se o suspeito que te persegue está armado, senão, há chances de diálogo. Olhe para os lados e calcule quantos morrerão antes. Olhe para baixo, bem para baixo, e, acredite, é onde estamos, na fila esperando.
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